27 junho 2019

Novas tecnologias rompem padrões de atendimento na saúde

“A pressão vem de todos os lados”, avisa Enrico de Vettori, líder da área de saúde da Deloitte. Segundo ele, as inovações serão frutos do trabalho das companhias nativas do setor e também de “estranhas”.

Na rota da transformação estratégica nos cuidados com o paciente, entram gigantes como Apple, Google, Microsoft e operadoras de telecomunicações. Empresas que enxergam nos serviços de saúde a oportunidade de engordar as receitas. Elas possuem aproximação com o paciente, que é um consumidor de seus serviços. “São capazes de capturar dados de comportamento essenciais para gestão de bem-estar e saúde.”

A empreitada digital é resultado da convergência entre os setores de consumo, tecnologia, saúde e telecomunicações. Tendência que aparece em dois estudos divulgados recentemente pela Deloitte: o Global Life Sciences Outlook e o Global Health Care Outlook. Vettori explica que o setor de saúde tem passado por uma série de inovações incrementais, que consolidará as evoluções tecnológicas e científicas dos últimos anos.

A chegada de empresas não tradicionais vai pressionar a remodelagem dos negócios. “Será uma espécie de engenharia reversa, com novos entrantes rompendo os padrões e propondo novas formas de cuidado”, diz. Entre as bases, ele destaca o bem-estar – fator que tem se tornado símbolo de status no mundo moderno –, a tendência do monitoramento remoto e a demanda por médicos de família. “Os pacientes estão indo para casa, não querem ficar longas temporadas nos hospitais.”

O estudo da Deloitte estima que, em 2022, o segmento de saúde movimentará US$ 10 trilhões no mundo, para acompanhar as mudanças demográficas – como o envelhecimento da população – e a maior incidência de doenças crônicas. As estratégias para dar conta do recado estão refletidas no volume de investimentos em tecnologias digitais, que devem somar US$ 280,25 bilhões até 2021.

No filão da indústria farmacêutica, o faturamento com medicamentos prescritos por médicos deve abocanhar US$ 1,2 trilhão em 2024. As farmacêuticas apostam no crescimento de drogas biotecnológicas e em acompanhamento médico remoto – via aplicativos – para incrementar suas margens.

Na área de ciências da vida, o estudo da Deloitte aponta uma acomodação nos orçamentos de pesquisa e desenvolvimento (P&D). “Há uma grande discussão sobre o aumento dos custos para a descoberta científica”, diz Vettori. Segundo ele, os custos de P&D estão em forte escalada. “É preciso entender como aplicar o dinheiro para ser mais efetivo. As empresas vão buscar mais parcerias e colaboração no desenvolvimento científico.”

Em paralelo ao desafio de prover soluções inovadoras, as instituições de saúde lidam com uma questão básica: integrar o conhecimento para obter resultados na operação e no atendimento ao paciente. “Temos de entender o problema e, a partir daí, escolher os recursos mais eficientes para resolvê-lo”, afirma o médico Álvaro Avezum, gerente da unidade de pesquisa em saúde do Hospital Alemão Oswaldo Cruz.

Segundo ele, é preciso driblar o assédio dos fornecedores e traçar planos que façam sentido. “Não adianta ter o melhor equipamento, software e leito conectado sem uma estratégia clara de inovação. Além de projetos de transformação digital – como aprimoramento do prontuário eletrônico e o uso estratégico das informações –, a área de pesquisa do Oswaldo Cruz toca 24 pesquisas, 70% delas na área de oncologia.

Para Luiz Verzegnassi, CEO da GE Healthcare para a América Latina, a percepção de Avezum está correta. “Para aproveitar toda a tecnologia disponível e gerar valor, é preciso ligar os pontos.” De acordo com ele, os projetos que integram conhecimento médico e recursos de equipamentos e sistemas são os que terão sucesso. “Já temos produtos com inteligência artificial embarcada. Mas são as instituições que vão inserir as informações e protocolos para ensinar os computadores.” O executivo indica o mapeamento de processos para conhecer e tratar os gargalos na operação. No Hospital de Amor em Barretos, por exemplo, a GE instalou um software capaz de capturar parâmetros das imagens de mamografia e sinalizar, ao fim do exame, se as imagens estão boas para leitura. O índice de reconvocação chegava a 60% antes da implementação. Com a solução de verificação automática, a reconvocação caiu para 5%.

Juan Carlos Gaona, gerente-geral da Abbott no Brasil, lembra que a medicina está migrando para um modelo em que o paciente é ativo na prevenção e no tratamento das doenças. “Isso muda a forma como projetamos.” A integração digital aparece como fator decisivo no desenho de produtos. Como exemplo, Gaona cita um equipamento para medir glicose que utiliza um sensor implantado no antebraço (um procedimento indolor). O sensor livra o paciente da necessidade de furar o dedo para medir o açúcar no sangue. Emite, ainda, relatórios para o celular, que podem ser compartilhados com o médico. “O paciente pode tomar decisões sobre a sua alimentação a qualquer momento. Basta consultar o aplicativo.”

A combinação entre conectividade e contabilidade distribuída (blockchain) vai acelerar os projetos de prontuário eletrônico. O blockchain, explica Gaona, permite criar um registro médico on-line para anotar exames, consultas e até os dados capturados por sensores. A vantagem está no fato de o paciente ser o dono das informações. “É ele quem dá acesso aos médicos e instituições de saúde.” Para a área de medicamentos, a Abbott construiu um centro de desenvolvimento farmacêutico na cidade do Rio de Janeiro, com investimento de R$ 20 milhões. A meta é desenvolver 15 medicamentos de marca por ano em áreas como cardiologia, saúde da mulher e sistema nervoso central. “Há oportunidades de inovação em moléculas que já conhecemos”, diz Gaona. Entre elas, estão fórmulas de liberação lenta no organismo. “Em vez de tomar o antibiótico de oito em oito horas, o paciente toma uma dose que age por 24 horas.”

A área de fármacos – intensiva em investimentos em P&D – utiliza a inovação para transformar seus negócios. A Roche Farma aposta na medicina personalizada como estratégia para seus negócios. No ano passado, comprou a Foundation Medicine, especializada em análise genômica para tratamento de câncer por US$ 2,4 bilhões. A empresa deu origem a uma nova área na Roche. Marcelo Oliveira, que dirige o time no Brasil, explica que a Foundation Medicine surgiu do trabalho de dois cientistas americanos, que identificaram 238 mutações no DNA de células tumorais. A publicação baseou o desenvolvimento de testes para identificar o padrão genético dos tumores e, a partir daí, aplicar a terapia e as drogas mais eficientes para combater a doença. Hoje, mais de 300 mutações estão mapeadas. “É uma medicina de precisão, que beneficia o paciente e o sistema de saúde.”

Na Beneficência Portuguesa (BP) de São Paulo, o mapeamento genético tornou-se uma prática no tratamento de câncer do pulmão. Segundo o dr. William William, diretor-médico de oncologia clínica e hematologia do Centro Oncológico da BP, 2,3 mil pacientes já se beneficiaram de testes genéticos, tendo acesso a tratamento personalizado. “É uma revolução. Há dez anos, tínhamos um protocolo único de terapia.” O médico explica que as alterações moleculares já são identificadas em 20% dos casos de câncer. A sobrevida dos pacientes com acesso à nova terapia é superior em 30%, quando comparada aos tratados de forma tradicional.

A aposta do Laboratório Cristália está no aumento dos investimentos em biotecnologia. O médico Ogari Pacheco, presidente do conselho de administração do laboratório, destaca a descoberta de uma bactéria – retirada do solo brasileiro – capaz de produzir colágeno sem o uso de componentes animais. “Ela se alimenta de proteína vegetal para produzir o colágeno. É um produto vegano”, explica. O colágeno extraído do meio vegetal é utilizado no tratamento de feridas e queimaduras. O laboratório registrou patente mundial. “A técnica elimina qualquer risco relativo à cultura animal, como a doença da vaca louca, nos medicamentos biotecnológicos que utilizam colágeno.”

Já o treinamento médico tem recebido reforço da realidade virtual (RV). Elisabete Murata, diretora sênior de educação da Johnson & Johnson Medical Devices para a América Latina, explica que os simuladores imersivos têm agradado aos cirurgiões. Com o uso de técnicas de videogame, a técnica permite ao profissional da saúde executar procedimentos complexos, como uma cirurgia ortopédica. “É possível rever e refazer o procedimento diversas vezes.” A tecnologia também amplia o acesso a treinamentos e reduz o custo. Em vez de levar um centro cirúrgico completo, basta carregar o computador, óculos de realidade virtual e luvas especiais que simulam a operação de aparelhos médicos como pinças e bisturis.

André Petribu, cirurgião do aparelho digestivo e coordenador administrativo do núcleo de cirurgia experimental do Hospital das Clínicas da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), destaca os diferenciais da ferramenta. “Conseguimos simular o ambiente, submeter o corpo clínico a testes e criar situações muito próximas do real. Tudo isso sem realizar uma cirurgia de verdade”, explica. No ambiente virtual, os médicos podem errar sem causar danos a ninguém e depois discutir o procedimento. “No final, a equipe sai melhor treinada.” Fonte: Valor Online Leia mais em panoramafarmaceutico 27/06/2019

27 junho 2019



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