26 abril 2020

Crise dá oportunidades para fundos de ativos em distressed

Advogada destaca crescimento dos negócios encabeçados por esses fundos.

“Apesar da imediata e natural redução do número de operações de fusões e aquisições, há uma clara tendência das empresas maiores, mais capitalizadas, buscarem oportunidades de compra de empresas com dificuldades financeiras decorrentes da crise do coronavírus”, explica a advogada Fernanda Bastos, sócia em Fusões e Aquisições do Cescon Barrieu Advogados. Ela explicou ao MONITOR Mercantil como essas operações têm sido conduzidas no Brasil.

No primeiro trimestre de 2020, segundo o TTR (Transactional Track Record, plataforma especializada no monitoramento de dados de M&A), o Cescon Barrieu Advogados liderou o ranking de assessores jurídicos em operações de fusões e aquisições no Brasil. Assessorou operações que, juntas, somam R$ 8,3 bilhões.

“É importante analisar potenciais mudanças de consumo que emergirão pós-Covid-19. Podemos esperar por aquisições de empresas que respondam as demandas do novo comportamento de consumo. Muitas possibilidades vão surgir no curto prazo, seja para que as empresas se reinventem, seja para a aquisição de competidores ou empresas complementares”, prevê Fernanda.

A advogada destaca também a tendência de crescimento dos negócios encabeçados por fundos de ativos em distressed (ativos depreciados de empresas à beira da falência). “Prova disso é que os escritórios norte-americanos estão treinando seus advogados para atuarem em compras de ativos em distressed, ou seja, em dificuldade financeira. Eles estão se preparando fortemente para essa nova tendência, que podemos esperar também para o Brasil”, afirma a advogada.

Entre os setores mais expostos à crise e, portanto, potencialmente mais propícios a um movimento de consolidação, Fernanda aponta os segmentos de shopping centers, empresas aéreas e todas as que demandam alta presença de público, como eventos e entretenimento. “Isso vale também para as empresas altamente alavancadas, com problema imediato de caixa, por descumprimento de pagamentos de clientes, por exemplo. Para essas empresas, as ferramentas jurídicas de proteções disponíveis são todas aquelas que minimizam o efeito da crise, como renegociação de dívidas, revisões contratuais, análise e potencial adoção de flexibilizações trabalhistas, além de atitudes que possam criar receitas alternativas”, explica.

Abaixo, a advogada Fernanda Bastos pontua um pouco mais sobre as operações envolvendo os ativos em distressed.

Como vislumbra o avanço desses fundos de ativos no Brasil? e qual a expectativa sobre o volume de aquisições?

- Não dá para termos uma visibilidade da quantidade de fundos. Até porque a gente tem aí uma pandemia global. Precisamos de uma definição dos outros mercados para que esses outros mercados possam trazer recursos para o Brasil. Eu não tenho como dar uma expectativa de volume. Esses fundos não são necessariamente fundos de investimento. Aquisições de distressed podem envolver empresas, fundo ou grupo econômico em posição mais vantajosa no mercado agora.

Os que estão mais endividados talvez não consigam cumprir as suas obrigações e aí entram em distress financeiro, o que gera oportunidade para aqueles que estão mais capitalizados. Por exemplo, as empresas que fizeram IPO recentemente -- e que são várias. As empresas que captaram dívidas, debêntures e outros tipos de títulos na bolsa ou no mercado também estão mais capitalizadas para olhar oportunidades de empresas que venham a sofrer necessidade de capitalização nesse momento.

Em sua opinião quando começará no Brasil essa “corrida” por tais fundos? Logo após a pandemia?

- Para mim já começou. Não estou falando de fundos de investimentos, mas de grupos capitalizados, grandes conglomerados. Eles já estão olhando ativos. Não espero que isso comece só depois da pandemia. Eu acho que é mais provável que as operações venham a se concretizar em um mês ou dois meses. As operações não pararam. Os grupos capitalizados continuam olhando.

A exemplo dos EUA, no Brasil os grandes escritórios envolvidos com fusões estão também preparando os seus advogados para atuarem nesse novo nicho financeiro?

- Ao contrário dos EUA que estão agora nessa onda de preparar os advogados para a área de distressed. O Brasil já vem de um período em que a gente trabalhou muito com ativos em distressed. O Brasil vem de uma crise relevante em que os seus advogados já tiveram que se preparar para lidar com esses tipos de ativos. Não é uma novidade para a gente. Estamos muito bem preparados juridicamente para conhecer a situação e lidar com ela.

Nesse tipo de aquisição há risco zero? ou como qualquer ativo adquirido não há absoluta certeza de ganhos de vulto.

-- Nenhum ativo tem ganho garantido. Eu acho que o comprador tem que analisar as sinergias desse ativo. Se este tem alguma coisa que complemente o portfólio do adquirente. Isso pode ser interessante para ele. Seja produtos complementares ou logística complementar. A gente tem visto esse tipo de aquisição, mas nada tem garantia de rentabilidade futura

Aliás, temos que lembrar que não só em termos de rentabilidade, mas em geral as empresas que estão sofrendo um período de distress financeiro têm uma série de dívidas, passivos fiscais, trabalhista e contratuais que por si só já geram risco para a transação. Essas operações podem levar risco para o comprador. E o comprador está disposto a assumir o risco tendo em vista o benefício e a sinergia que vai gerar e o valor bastante reduzido da operação que está sendo oferecida no mercado... Leia mais em monitormercantil 24/04/2020

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