O Brasil avançou muito nas últimas décadas e a sociedade passou por grande transformação. A combinação do Plano Real, das reformas e privatizações do governo FHC e a forte transferência de renda dos anos Lula tiveram, em seu conjunto, expressivo impacto no crescimento da renda real média do brasileiro, algo em torno de 4% ao ano entre 1993 e 2011.
Esse crescimento da renda gerou um aumento da formalização da mão de obra, com impacto no acesso ao crédito, fazendo do Brasil o quinto maior mercado de consumo do mundo. Em 1993, 63% da população se encontrava nas classes D e E. Hoje, 70% da população está nas classes A, B e C. Ao se tornar consumidor e pagar impostos, o cidadão vê mudar sua relação com o governo, demandando melhores serviços públicos, mais qualidade de vida e a moralização da coisa pública, em contraponto à montanha de impostos que lhe são cobrados. Não à toa, eclodiram em 2013 protestos em todo o país.
O establishment político foi devorado pela esfinge, ao não decifrar o enigma.
Recente pesquisa da Fundação Perseu Abramo torna esse processo ainda mais evidente. O cidadão apoiava o governo Lula porque seu padrão de vida melhorou, não por inclinação ideológica. O espectro político brasileiro se desloca para a direita: "It's the economy, stupid", como disse o estrategista James Carville da campanha de Bill Clinton. O inimigo é o governo, a burocracia, a ineficiência da máquina pública.
Quando se deram as eleições de 2010, os fatores de produção estavam ocupados, bem como os portos, aeroportos e rodovias, sucateados e saturados. O diagnóstico era simples: fazer reformas microeconômicas e investir pesadamente em infraestrutura. A escolha foi por anabolizar a demanda através de crédito farto, juros artificialmente baixos, câmbio supervalorizado e utilização das tarifas públicas para conter a inflação. Essas medidas exacerbaram o desequilíbrio já existente na oferta, arrasaram o quadro fiscal e ameaçam o potencial de crescimento de longo prazo.
A capacidade do Estado de liderar o crescimento foi aniquilada; a máquina pública, ferida de morte. Há males que vem para o bem, pois num país com uma cultura patrimonialista tão arraigada, isso é um "blessing in disguise" [benção disfarçada, em tradução livre]. O novo ciclo de crescimento terá de ser liderado pela combinação de investimentos e consumo, em que o Estado será reduzido para dar lugar à poupança e à formação bruta de capital. Não temos dúvidas de que a agenda iniciada no governo Temer será aprofundada pelos governos que o sucederão. É um processo de longo prazo, sustentado por essa transformação da sociedade brasileira.
O mercado de capitais sairá fortalecido. Não teremos mais a onipresença dos bancos públicos, elegendo os ganhadores nacionais. As empresas terão de recorrer ao mercado de debêntures e de ações para se financiar.
Inevitavelmente, teremos uma nova rodada de privatizações e concessões, desta vez com majoritária presença de capital internacional. Um mercado maior, mais líquido e com mais empresas listadas favorecerá os fundos de investimento.
Assistimos à queda abrupta dos recursos investidos em poupança e à migração para os fundos de investimento. Mas o ambiente econômico e político de alta volatilidade fez com que essa migração se desse, principalmente, para fundos de renda fixa.
O hiato de oferta leva a uma acomodação da inflação em patamares baixos, permitindo juros de um dígito por um período longo (reformas serão necessárias para que a inflação permaneça baixa quando a oferta atual for tomada). A reforma da Previdência é fundamental para que o apetite por risco retorne com força.
Os investidores institucionais, pessoas físicas e estrangeiros mantêm o menor apetite por risco desde que iniciei minha carreira profissional. Fundos de ações representavam 15% da indústria de fundos em 2008; hoje somam apenas 4,5%. A combinação de juros baixos e aprovação das reformas necessárias trará um grande volume de recursos para os fundos dedicados a ativos de risco, como ações e multimercados.
Outro fator que contribuirá para essa transformação é o crescimento da penetração das plataformas digitais. Num país em que apenas 200 mil pessoas ganham mais de 80 salários mínimos e são disputadas à unha por grandes bancos e gestores de patrimônio, temos um número muito maior de investidores potenciais (26 milhões de contribuintes) que não tinham acesso a gestores independentes e eram obrigados a aceitar rendimentos bastante inferiores. Através das plataformas, esses investidores têm agora acesso a uma indústria de gestão bem regulada, com muitas gestoras independentes de grande porte, que possuem equipes com profissionais altamente qualificados e produtos com retornos consistentes de longo prazo.
Nós, da AZ Quest, nos preparamos para esse movimento e, apesar da turbulência, enxergamos o futuro do Brasil, e do mercado de capitais em particular, com bastante otimismo. - Valor Econômico Por Walter Maciel Leia mais em portal.newwsnet 08/06/2017
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