25 novembro 2016

Inadimplência entre empresas menores não reage e preocupa

A inadimplência das operações de crédito dá os primeiros sinais de que o pior está ficando para trás, mas a situação das pequenas e médias empresas ainda preocupa. Enquanto as grandes companhias têm maior poder de fogo para renegociar as condições dos seus empréstimos, as de menor porte sofrem com espaço reduzido para negociação com os bancos, flexibilidade menor para lidar com custos fixos mais altos e maior dependência em relação a fornecedores e clientes.

Bastante cautelosos, especialistas não veem chances de melhora nesse quadro até que a economia inverta a trajetória recessiva. No entanto, a avaliação é que o processo de depuração do setor está mais próximo do fim e alguns bancos - os públicos em especial - já se preparam para a retomada das concessões.

Os balanços do terceiro trimestre evidenciam a situação desconfortável e indicadores da Serasa Experian passados com exclusividade ao Valor corroboram o movimento. Segundo a Serasa, as empresas bateram recorde de CNPJs negativados em setembro, com estragos concentrados nas menores. Foram 4,6 milhões de empresas que encerraram o terceiro trimestre inscritas na Serasa - 93,5% micro e pequenas empresas (faturamento abaixo de R$ 4 milhões).

No acumulado do ano, outro recorde negativo: o de pedidos de recuperação judicial. Mas, enquanto entre as grandes companhias (receita acima de R$ 50 milhões) os pedidos cresceram 11%, entre as médias (entre R$ 4 milhões e R$ 50 milhões) subiram 30% e, entre micro e pequenas, avançaram 91,5%.

"A inadimplência desse segmento subiu durante todo o ano e preocupa", diz Edmar Casalatina, diretor de micro e pequena empresa do Banco do Brasil. Segundo ele, 42% do crédito às micro e pequenas está no comércio, diretamente atingido pela queda da atividade econômica.

No BB, a inadimplência em pessoa jurídica está em 5,2%. Sem abrir os números específicos para os calotes de empresas de menor porte, que no BB incluem aquelas com até R$ 25 milhões de faturamento anual, Casalatina diz apenas que "qualquer coisa acima de 2,5% é bastante preocupante".

Entre os privados, os números também mostram deterioração. Em evento na Apimec no dia 17, o presidente do Itaú Unibanco, Roberto Setúbal, exibiu preocupação ao dizer que enxerga melhora em todos os segmentos, mas que a inadimplência das pequenas e médias ainda sobe.

O mix da carteira do Itaú mostra a piora. Em 2012, as empresas de menor porte tinham 45,1% da carteira e as grandes ficavam com 54,9%. A proporção hoje é de 32,2% contra 67,7%. O calote de micro, pequenas e médias subiu de 6% para 6,3% do segundo para o terceiro trimestre, influenciado pela contração de 2,3% da carteira do segmento. Entre as grandes, houve pequena queda no período, de 1,6% para 1,4%, excluindo-se o efeito de um grupo específico.

No Bradesco, cujo balanço separa apenas empresas com faturamento acima de R$ 250 milhões ao ano, a inadimplência de micro, pequenas e médias subiu de 7,2% em junho para 7,8% em setembro, sem o HSBC. Entre as grandes, houve queda de 0,79% para 0,7%, desconsiderado o efeito de um cliente específico. O Santander não faz essa separação no balanço. Procurados, Caixa, Itaú, Bradesco e Santander não se pronunciaram.

Em balanço divulgado ontem, o Banco Central mostra que a inadimplência na pessoa física estabilizou em todas as bases de comparação, mas os calotes na pessoa jurídica sobem 0,3% em outubro sobre setembro e 1,1% em 12 meses. Por porte de empresa, o relatório de estabilidade do BC, único a fazer essa separação, mostra a situação difícil para as menores.

Marcelo Monteiro, diretor de novos negócios da empresa de soluções para crédito e cobrança PH3A, diz que companhias de menor porte têm mais dificuldade de renegociar dívidas em razão poder de barganha reduzido tanto com os bancos quanto com os clientes. "Elas acabam tendo que abrir mão ou de margem ou de prazo", diz.

Economista-chefe da Serasa, Luiz Rabi diz que as grandes empresas também passam por dificuldade, mas reconhece que a corda sempre estoura nas mãos das menores, sem acesso ao mercado de capitais. Uma queda mais acelerada dos juros seria crucial para contornar a situação, mesmo ante incertezas no cenário pós-Trump.

Casalatina, do BB, diz que o processo de seleção natural pelo qual passaram empresas de menor porte - algo que, diz ele, chama atenção inclusive de outros bancos - abre espaço para um 2017 mais otimista. O BB está reestruturando o atendimento às micro e pequenas e deve entregar no próximo ano 60 agências especializadas.  - Valor Econômico Leia mais em portal.newsnet 25/11/2016


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