18 setembro 2011

Buscamos potencial de bilhões de dólares

John O'Farrell é sócio da Andreessen Horowitz, que investiu em empresas como Facebook, Twitter, Zynga e Groupon
O’Farrell fala português e tem interesse em empresas brasileiras

Casado com brasileira, o irlandês John O"Farrell fala português. Ele é sócio na empresa de investimentos Andreessen Horowitz, que tem participação em estrelas da mídia social como Facebook, Twitter, Zynga e Groupon. Com Marc Andreessen e Ben Horowitz, esteve à frente da Loudcloud, pioneira da computação em nuvem que, depois do estouro da bolha da internet, em 2000, foi transformada na empresa de software Opsware e vendida para a HP por US$ 1,6 bilhão.

"Marc disse uma vez que o empreendedor só experimenta dois sentimentos: euforia e terror", destacou O"Farrell, referindo-se ao sócio, fundador da Netscape, companhia que tornou popular o navegador de internet. "É muito difícil criar uma empresa de sucesso." O"Farrell recebeu o Estado em seu escritório na Sand Hill Road, em Menlo Park, para falar sobre como escolhe empresas para investir e sobre o que torna único o Vale do Silício único. A seguir, trechos da entrevista.

Como foi a experiência na Loudcloud?
Ingressei na Opsware, que na época ainda se chamava Loudcloud, em março de 2001. As condições econômicas eram bem diferentes, bastante difíceis. Tínhamos muitos desafios. Por um ano ou dois reduzimos muito a equipe. De uma empresa de infraestrutura, mudamos para software, e então tivemos bastante sucesso.

Vocês foram os pioneiros da computação em nuvem?
De certa forma, fomos a primeira empresa de computação em nuvem, dez anos antes do tempo. A tecnologia ainda não estava pronta. Os equipamentos eram muito caros. Não conseguimos tirar uma vantagem total daquela tecnologia. Tínhamos o conceito de oferecer serviços de cloud computing (infraestrutura e software com serviço), e os clientes gostavam. Mas era muito caro para operar. Vou dar um exemplo rápido. Cobrávamos de um cliente típico, para rodar um site crítico para ele, US$ 150 mil por mês, incluindo espaço de data center, servidores, armazenamento de dados e infraestrutura de rede. Hoje, na Amazon ou na Rackspace, é possível rodar o mesmo site por US$ 1,5 mil. Um centésimo. O conceito era ótimo, mas a tecnologia não estava pronta.

Como vocês escolhem as empresas em que investem?
Acreditamos que poucas empresas geram a maior parte do valor entre todas as companhias fundadas num determinado ano. Pesquisas indicam que 15 startups vão tornar-se responsáveis por 90% do valor gerado por todas as empresas fundadas naquele ano. Em 2011, milhares de empresas estão sendo criadas, e acreditamos que vale a pena investir em um porcentual muito pequeno delas. Nosso objetivo é encontrar essas empresas e investir nelas em qualquer estágio em que elas precisem de dinheiro. Somos investidores de múltiplos estágios. Investimos muito ativamente no estágio de semente, em que o montante pode ser de apenas US$ 50 mil. Somos muito ativos em capital de risco e também investimos em empresas em estágio mais avançado, que chamamos de estágio de crescimento. Não quero dizer empresas maduras, mas empresas que já têm um bom faturamento e muitos clientes e ainda têm um vasto mercado disponível, com grande potencial para crescer. Alguns exemplos são Facebook, Twitter, Zynga, Skype e Groupon. Não estávamos entre os primeiros investidores dessas empresas. Temos somente dois anos. Mas não hesitamos nem um pouco para investirmos nesse tipo de empresa.

Como vocês identificam o potencial?
Procuramos mercados gigantes, que permitem às empresas terem faturamento de muitos bilhões de dólares. Se a empresa precisa conquistar 90% do mercado para faturar US$ 1 bilhão, está no mercado errado e não é um alvo de investimento para nós. Somos muito focados no empreendedor. Temos preferência por fundadores com conhecimento técnico. É possível transformar um ótimo engenheiro num ótimo executivo, mas é impossível transformar um ótimo executivo num ótimo engenheiro. Isso levaria muitos anos de estudo universitário. Acreditamos muito em tecnologia. Principalmente nos estágios de semente e capital de risco, evitamos empresas que ofereçam inovações de modelo de negócios. Preferimos inovações tecnológicas. Somos muito seletivos. Passamos 99% do nosso tempo dizendo não. Analisamos muitas empresas boas, e escolhemos as que são mesmo excepcionais.

Como identificar vencedores?

Nunca temos 100% de certeza. Num estágio inicial, procuramos essa combinação de mercado, empreendedor e tecnologia. Quando analisamos o empreendedor, olhamos o que ele fez até agora. Nós investimos em empreendedores de primeira viagem, mas adoramos pessoas com experiência prévia. No nosso portfólio, metade são empreendedores em sua primeira vez e metade são indivíduos em sua segunda ou terceira empresa. Gostamos de ver fracasso no passado tanto quanto sucesso, porque o fracasso ensina muito. Do ponto de vista pessoal, somos muito focados no Vale do Silício, porque temos uma rede de relacionamentos muito forte aqui. Para qualquer empreendedor do Vale do Silício que venha até nós procurando investimento, conhecemos ou conseguimos encontrar, muito rapidamente, pessoas que trabalharam com ele no passado, muitas referências. Essa é uma das razões pelas quais não fazemos investimentos em estágios iniciais no Brasil ou outros países. Não temos essa rede de relacionamento. Fora daqui, podemos fazer investimento em empresas num estágio mais adiantado, que já provaram alguma coisa. Numa empresa em estágio inicial, a aposta é na pessoa.

Essa rede de relacionamentos é o motivo de vocês estarem aqui?
É um deles. Esta região é muito especial. Em primeiro lugar, levou muito tempo para se desenvolver. A indústria de tecnologia aqui tem mais de 50 anos. Muitos países do mundo, incluindo o meu, que é a Irlanda, tentaram criar um pequeno Vale do Silício. Tiveram algum sucesso, mas nada como este lugar, em termos de escala. Alguns motivos são ótimas universidades. O Vale do Silício começou ao redor de Stanford, e Berkeley também. Temos a comunidade de capital de risco, que é muito forte. A Sand Hill Road tem uma longa tradição de empresas dispostas a correr riscos. O ecossistema é muito importante. Existem empresas muito grandes, que eram iniciantes há alguns anos, e também empresas mais novas. Temos Google e Facebook, Apple e HP, Cisco e eBay e outras. Elas são parceiras, clientes e muitas vezes adquirem as empresas menores. Muitas pessoas ganham experiência nessas empresas, antes de criar a sua própria. A Califórnia atrai pessoas de toda parte do mundo, que querem fazer diferença. Num restaurante do Vale do Silício, é possível ouvir todas as línguas do mundo.

Qual é o papel do governo por aqui?
O governo exerce algum papel, por exemplo, no tratamento tributário dos investimentos, que sempre foi muito favorável. O investimento de capital de risco é tratado como ganho de capital, com uma taxa de 20%. Isso incentiva as pessoas a colocar dinheiro em investimentos de tecnologia de alto risco. Outros aspectos são educação e infraestrutura. Também é importante lembrar que muito da tecnologia desenvolvida aqui no início foi financiada pelo governo.

Mas foi intencional?
Não, e esse é um ponto importante. É difícil recriar este ambiente exclusivamente com ações de governo. Pode ajudar. Se eu fosse destacar uma coisa que o governo pode fazer, e que faz deste lugar um sucesso, é a educação.
Fonte:oestadodesp18/09/2011

18 setembro 2011



0 comentários: